Por que o cérebro prefere gastar agora a poupar para o futuro? Veja papel da dopamina

Publicado em 28/10/2026

Neurocientista Carla Tieppo explica como a busca por recompensas imediatas influencia decisões ao lançar novo livro sobre o tema

Comprar pela internet, pedir comida por aplicativo ou resolver problemas com poucos cliques oferece uma sensação quase instantânea de satisfação.

Mas por que é tão fácil buscar recompensas imediatas e tão difícil manter a disciplina para objetivos de longo prazo, como poupar ou planejar a aposentadoria? Parte da resposta está na dopamina, substância produzida pelo cérebro que participa dos mecanismos de motivação e tomada de decisão.

É o que explica a neurocientista Carla Tieppo, que estuda o sistema dopaminérgico há cerca de 30 anos e acaba de lançar o livro Dopamina: vilã ou mocinha?, escrito em parceria com a filósofa Carina Grassotti.

Segundo ela, a dopamina ganhou popularidade nas redes sociais, mas muitas das explicações que circulam na internet não correspondem ao seu funcionamento. Substância associada ao prazer, a dopamina participa da escolha de comportamentos e da motivação para realizar tarefas, inclusive aquelas que exigem esforço e disciplina.

“Quanto maior a nossa expectativa de recompensa imediata pela ação, maior é a força que a gente tem para realizar aquela ação.”

— Carla Tieppo
Ela cita como exemplo as compras pela internet: mesmo que o produto demore dias para chegar, o consumidor experimenta uma satisfação instantânea ao concluir o pedido. O mesmo acontece quando alguém pede uma refeição por aplicativo. A comida ainda não chegou, mas a pessoa já resolveu o que vai comer.

Esse mecanismo também ajuda a compreender um dos desafios do planejamento financeiro: abrir mão de uma satisfação presente em benefício de algo que só trará resultados no futuro. Enquanto uma compra oferece uma recompensa imediata, guardar dinheiro ou investir para a aposentadoria exige constância, mesmo quando os benefícios parecem distantes.

Como transformar o esforço em motivação?

Para Carla, o problema está na maneira como as pessoas direcionam seus desejos e valorizam os próprios esforços e não na dopamina em si. Ela observa que muitas pessoas encaram atividades importantes para o bem-estar, como exercícios físicos, como obrigações das quais querem se livrar, em vez de conquistas que merecem reconhecimento. A mesma reflexão vale para a construção de hábitos financeiros, que dependem de disciplina ao longo do tempo.

“Você está se deixando cooptar pela sociedade que está escolhendo onde vai pôr sua dopamina”, diz Carla, ao comentar a influência das redes sociais e dos estímulos digitais.

Para ela, compreender o que orienta nossas escolhas é uma maneira de recuperar o controle sobre o próprio comportamento. Isso não significa eliminar desejos ou buscar um suposto detox de dopamina, prática que ela critica por não ter fundamento científico, mas reconhecer porque algumas ações parecem tão atraentes enquanto outras exigem mais esforço.

Da neurociência à proteção financeira

Essa relação entre motivação e segurança financeira também orienta o trabalho de Carla no Grupo MAG, especializado em vida e previdência, onde assumiu uma cadeira no conselho consultivo no fim de 2025.

Um ano depois, a neurocientista avalia que sua principal contribuição foi estimular novos questionamentos dentro da companhia, especialmente sobre o que motiva as pessoas e como a proteção financeira pode fazer mais sentido em diferentes realidades sociais.

“Acho que primeiro eu consegui gerar uma provocação geral. Todo mundo começou a fazer novas perguntas”, conta.

Entre as iniciativas das quais participou estão mudanças no processo de entrada e relacionamento com novos clientes, campanhas institucionais e o projeto MAG 200, que busca preparar a seguradora para completar dois séculos de atuação.

Segundo Carla, o projeto, desenvolvido em parceria com a Singularity University, analisa cenários futuros e tendências de comportamento para aproximar seguros e previdência do cotidiano da população.

A proposta é ajudar as pessoas a reconhecer suas necessidades de proteção antes mesmo de receberem uma oferta comercial. Isso exige mudanças na comunicação com os clientes e na abordagem dos corretores sobre temas que muitas vezes ficam fora das conversas sobre dinheiro, como morte, invalidez e segurança financeira da família.

Para a neurocientista, o relacionamento deve ir além da contratação de uma apólice (contrato de seguro) e acompanhar as necessidades de cada pessoa ao longo da vida.

Carla defende que o relacionamento entre seguradoras e consumidores não se limite ao pagamento de algumas mensalidades. Para ela, o setor precisa construir vínculos duradouros, capazes de acompanhar as necessidades de proteção das famílias ao longo da vida.

Fonte:

https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/por-que-o-cerebro-prefere-gastar-agora-a-poupar-para-o-futuro-veja-papel-da-dopamina/

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