- Ao realizar a portabilidade, investidores mantêm a mesma data da aplicação, prazo, retorno contratado, titularidade e tributação. A maioria das aplicações pode ser transferida, como ações, Certificado de Depósito Bancário (CDBs), fundos que replicam índices e são vendidos em bolsa (ETFs), fundos imobiliários e títulos públicos. Alguns ficam de fora, por limitações na sua estrutura, como Certificado de Operações Estruturadas (COEs), derivativos e grande parte dos fundos de investimentos.
- Dá para migrar parte ou todas as aplicações em até dois dias úteis. Não há custo extra para mudar e a portabilidade não gera imposto, já que não ocorre a venda das aplicações. O imposto será pago somente na venda dos investimentos no futuro. O processo é seguro, segundo especialistas. As aplicações continuam registradas na B3 no CPF do investidor. A alteração afeta apenas o banco ou a corretora.
A nova norma que permitiu essa transferência mais facilitada passou a valer em janeiro. Trata-se da Resolução 210 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Agora, o investidor pode começar a fazer a migração pelo site ou aplicativo do banco ou corretora para o qual deseja transferir os recursos, o que torna o processo menos burocrático e mais rápido.
Antes, o pedido era feito na instituição onde tinha os recursos inicialmente. A exemplo de empresas de telefonia, muitas plataformas tentavam ao máximo dissuadir o investidor, dificultando o processo. Outra alternativa é pedir a portabilidade via área do investidor no site da B3.
O novo cenário acirrou a competição pelo dinheiro dos investidores.
Campanhas dos bancos e corretoras passaram a oferecer cartões de crédito, cashback, investback (investimento de volta), milhas e salas vip em aeroportos. Até os consultores independentes de investimentos têm sido abordados para incentivar os investidores a transferir os recursos. É comum os incentivos serem para investir em produtos específicos, como fundos de previdência privada ou produtos que estão sofrendo saques dos investidores.
Entretanto, os benefícios costumam exigir um prazo de permanência mínimo dos investimentos na instituição e diversas condições. E, para valerem a pena, precisam de fato melhorar a experiência dos investidores.
Vale a pena mudar para ganhar benefícios?
“Enxergamos com excelentes olhos a portabilidade, que traz mobilidade para o investidor poder tomar a melhor decisão sem ficar preso em um banco ou corretora. Facilitou começar a fazer a transferência pela instituição de destino”, afirma Caio Zylbersztajn, sócio da casa de análises independente Nord Investimentos.
No entanto, ele aconselha não ficar pulando de galho em galho, dispersando muito o patrimônio. “Cuidado com o cabo de guerra entre as instituições. É muito comum os clientes ficarem perdidos com os recursos em plataformas demais e isso piorar o crescimento do dinheiro no longo prazo”, alerta.
Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que esse cabo de guerra pelos recursos dos brasileiros não é de hoje. Começou há cerca de 20 anos, com a migração de bancos para plataformas de investimentos. Depois, os bancos começaram a lançar as suas próprias plataformas com investimentos de diferentes emissores, os “supermercados de investimentos”, para competir com as corretoras.
O dinheiro das pessoas acabou sendo pulverizado entre várias instituições. Agora, a disputa não é para ser a única “dona” do cliente, mas a principal. “Nossos pais e avós eram correntistas de um único banco. Depois, passamos a ter conta na instituição A, B e C. Agora, todos querem ser a principal plataforma do cliente e estão fazendo um movimento para as pessoas trazerem os seus investimentos”, diz.
Yoshinaga indica analisar não apenas quantos benefícios são ofertados, mas, principalmente, a qualidade do serviço. Coisas como a assessoria para escolher os investimentos, a segurança e a tecnologia da plataforma.
“As campanhas são super atrativas, mas é importante ler as letras pequenas e focar nas regras de tempo de permanência mínimo. Ficar amarrado em uma instituição por muito tempo pode ser ruim depois. Não vá por impulso”, diz.
O Centro de Estudos em Finanças da FGV fez um estudo das melhores plataformas para investir.
O levantamento mediu a qualidade do atendimento com base em critérios como aconselhamento claro, facilidade para os problemas serem resolvidos e facilidade de uso e a organização das ferramentas. A Ágora, a Rico e o BTG Pactual, nessa ordem, foram eleitas as melhores plataformas para investir, enquanto o Itaú, o Bradesco e o Banco do Brasil, respectivamente, foram eleitos os melhores bancos para investir.
Melhores plataformas para investir
Estudo da FGV das plataformas com melhor atendimento ao investidor:
Posição Plataforma de investimento Nota de 1 a 5
Na avaliação de Carlos Castro, presidente da plataforma de planejamento financeiro SuperRico, a portabilidade de investimentos empodera os investidores para mudar de plataforma quando a instituição não está atendendo bem os clientes. Contudo, ele ressalta que os produtos das corretoras e bancos são muito parecidos atualmente e que a diferença está na qualidade do serviço.
“Produto hoje em dia é commodity. O importante é o relacionamento que o investidor desenvolve com o consultor ou assessor que ajuda a decidir sobre os investimentos”, afirma. Castro recomenda pedir indicação para os amigos e familiares, como se pede indicação para ir ao médico. Além disso, o planejador sugere investir uma parte pequena do dinheiro para experimentar a instituição antes de fazer a portabilidade de todos os recursos.
Vale a pena ‘open finance’ de investimentos em troca de benefícios?
Bancos e corretoras também têm oferecido benefícios aos que aderem à funcionalidade do “open finance”, na qual se compartilha os dados financeiros de várias instituições. Quem deixa a plataforma ver todos os seus investimentos em diferentes bancos e corretoras ganha incentivos, como cartões de crédito melhores.
Mas essa oferta é problemática, diz Luciana Seabra, sócia e chefe da casa de análises independente Indê Investimentos.
“A ideia de que o gerente ou assessor de investimentos vai entender melhor a pessoa com o ‘open finance’ e deve favorecer o investidor pressupõe que o profissional é independente, mas ele não é. É como se um vendedor de loja pedisse para ver o seu armário para oferecer roupas melhores. É claro que ele quer que você use as roupas da marca para ele ganhar mais”, afirma.
“Recomendo aos clientes não mostrar todos os investimentos para ganhar benefícios, porque aumenta a capacidade da instituição de chantageá-los. É melhor o investidor decidir fazer a portabilidade dos investimentos que deseja do que abrir completamente os seus dados”, diz.
Fonte: https://valorinveste.globo.com/objetivo/hora-de-investir/noticia/2026/04/13/portabilidade-de-investimentos-quando-os-beneficios-oferecidos-valem-a-pena.ghtml